
Entrevista Jornal Agora
HERNANI SÁ, ENGENHEIRO QUÍMICO
“Os óleos e gorduras podem substituir todos os derivados do petróleo”
Com um currículo invejável, que inclui passagens por ministérios e grandes empresas nacionais e estrangeiras, como Petrobras e Nalco Chemical, o engenheiro químico ilheense Hernani Lopes de Sá Filho, descobriu em suas pesquisas feitas nos laboratórios da Ceplac, da Uesc e mesmo em casa, que os óleos vegetais podem substituir todos os derivados do petróleo.
A descoberta foi a luz de que ele precisava para desenvolver um projeto revolucionário – a produção de um combustível para carro a partir da utilização do óleo de dendê. O projeto está pronto há 18 anos, mas nunca foi levado a sério pelo governo e, por isso mesmo, jamais foi posto em prática. Ao longo desses anos todos, Hernani Sá percorreu gabinetes influentes de Salvador e Brasília na tentativa desesperada de ver a sua idéia valorizada e aproveitada. Provou por A mais B que o projeto, batizado como Dendiesel, tem viabilidade econômica, mas nem assim foi atendido. Resultado: o projeto encontra-se engavetado. Com a chegada de um ex-metalúrgico à Presidência, o engenheiro espera realizar o sonho de ver o seu projeto ser desenvolvido com apoio do presidente Lula. Na entrevista que segue, Hernani Sá revela que, enquanto o Brasil depende do petróleo como única fonte geradora de combustível, alguns países da Ásia estão colocando o projeto do Dendiesel em prática.
JA – Quando começou o seu interesse pelos combustíveis alternativos?
Hernani Sá – Sou engenheiro químico formado na Escola Politécnica Federal de Salvador, com especialização em engenharia de petróleo na Petrobras, onde fui responsável pelo controle de qualidade do petróleo produzido na Bahia e por algumas modificações em equipamentos que o Brasil importava, sem necessidade. Em 1974, o Centro de Pesquisas da Petrobrás me convidou para trabalhar. Com essa oportunidade, passei a conhecer as dificuldades de novas descobertas e me preocupei com a duração das nossas reservas, já que temos, na Amazônia, a maior bacia sedimental do mundo. Porém, o petróleo que formou lá, migrou. Por isso, temos que trabalhar a Amazônia para evitar que ela seja internacionalizada. Temos condições de fazer na Amazônia um grande programa de petróleo plantado. Depois da Petrobras, fui trabalhar numa empresa norte-americana, a Nalco Chemical Company, que se implantou no Norte/Nordeste, e lá fiquei responsável pelo tratamento do Pólo Petroquímico da Bahia.
JA – Como surgiu o interesse por novos combustíveis?
H.S. – Quando veio o primeiro choque do petróleo em 1973, o Brasil não se empenhou muito porque vivia num mar de tranquilidade. Era o país que mais crescia, com 10% ao ano, junto com o Japão e a Itália, e o ministro Delfim Neto dizia que estávamos num mar de tranquilidade, que a alta do petróleo não iria nos afetar. Em 76, começaram a buscar saídas para os derivados do petróleo e o Brasil já tinha experiência desde a primeira Guerra Mundial com o álcool. Então, intensificaram os estudos em cima do álcool. Daí, surgiu o Pró-Álcool. Nessa época, fui para o Ministério da Indústria e do Comércio e me convidaram para coordenar o grupo de química da Secretaria de Tecnologia Industrial. Mas eu preferi o Instituto Nacional de Tecnologia e fui chefiar o grupo de engenharia. Lá, fazíamos avaliação de projetos voltados para a energética, para serem financiados pelo FUNAT, que era o Fundo Nacional de Amparo à Tecnologia. Nesse período, achava-se que o problema brasileiro era a gasolina, o que foi um grande equívoco. A gasolina é um derivado do petróleo, de onde se tira quase 30% de gasolina, 30% de óleo diesel, 30% de óleo combustível e 10% dos outros derivados. Não se pode mexer muito nisso. Isso indicava que nós teríamos gasolina excedente à medida que fosse substituindo pelo álcool, e o país teria que importar a mesma quantidade de petróleo para obter os outros derivados, quer dizer, sobrava gasolina e o Brasil exportava.
JA – E como começou a pesquisa com os óleos?
H.S. – Houve manifestações contrárias a isso. Mas eu fui incumbido pelo Enos Vital Brasil, que era o presidente do Instituto Nacional de Tecnologia, de fazer um levantamento das possibilidades de substituição dos outros derivados do petróleo. Tive uma equipe maravilhosa, com 80% de mulheres, e nós chegamos à conclusão que os óleos e gorduras animais e vegetais podiam substituir não apenas o óleo diesel, mas todos os derivados do petróleo. Essas substâncias de origem vegetal e animal têm semelhança com o petróleo líquido, que se pode produzir indefinidamente, ao contrário do petróleo fóssil, que foi formado entre 20 e 200 milhões de anos, e não se faz mais. Acabou. O uso dele como está sendo feito está destruindo o clima do planeta. Em 1979, publicamos um trabalho no informativo do INT e saiu em várias revistas de circulação mundial. Houveram experiências que até mesmo o óleo deteriorado, como está se fazendo agora, poderia ser usado como substituto do óleo diesel e transformado com a reação conhecida como TRANSESTERIFICAÇÃO, substituir a glicerina por um monoálcool, que pode ser o etanol ou o metanol. Eu defendo o etanol que é um produto nosso. Nós temos a melhor tecnologia do mundo para produzir álcool etílico. Então, se houver necessidade desse casamento do óleo com o álcool, que seja o álcool nacional. Catalisadores usam a hidróxido de potássio, mas a reserva se esgota rapidamente, e o que nós sugerimos é o hidróxido de sódio, e se tem um mar inesgotável de matéria-prima.
JA – O que lhe trouxe para o Centro de Pesquisas do Cacau?
H.S. – Depois desse estudo, passamos a informação para a Secretaria de Tecnologia Industrial, que resolveu fazer uma demonstração em larga escala no Brasil e foi criado um programa de óleos vegetais. Então, frotas de ônibus e caminhões rodaram o Brasil inteiro com óleos vegetais. Em 1982, engavetaram o chamado Pró-óleo. Fizeram comparações absurdas. Compararam o óleo vegetal com o óleo de prateleira de supermercado. Eu não me conformei com isso. Eu deixei uma empresa grande para atender a um chamamento do governo brasileiro e não podia me conformar. Aí, comecei a me articular com algumas instituições, como a Petrobrás que me conhecia, e a Volkswagem, onde eu coloquei um trator em funcionamento com óleo de dendê. Eu tinha o respeito de algumas instituições, e ví que a Ceplac era aquele órgão que faltava para deslanchar o grande programa nacional, através da agricultura e da pesquisa tecnológica. Lançamos o dendiesel e pegamos todo mundo de surpresa, em 1984. Participaram desde pool de instituições, a Sulba, Instituto Nacional de Tecnologia, Fundação de Tecnologia Industrial, Instituto Nacional de Metrologia, Volkswagem e Petrobras. A Volkswagem me deu um Parati, que está aí há 18 anos, é peça de museu, e eu rodei 85 mil quilômetros com dendê, e dois mil quilômetros a própria Volkswagem rodou com óleo de soja. Mas o dirigente da Ceplac, José Haroldo, saiu. Ele prometeu de público no dia 24 de novembro de 1984, os recursos complementares. Eu também tinha a garantia de dinheiro da Secretaria de Tecnologia e apoio logístico e técnico de outras instituições. Cabia a Ceplac ampliar as plantações de dendê e desenvolver as tecnologias de produção de mudas. Mas com a saída de José Haroldo, fiquei sem condições de trabalho.
JA – O senhor andou 85 mil quilômetros com a Parati. Como ficou a manutenção e o desgaste do motor?
H.S. – Com 50 mil quilômetros, o resultado foi superior ao que normalmente é apresentado com o uso do óleo diesel.
JA – Pelo visto, a Ceplac tinha condições de fazer o processo de utilização do óleo de dendê como combustível. Além disso, o que mais era preciso?
H.S. – Tinha todas as condições experimentais. Eu vejo hoje que o processo era o mais simples possível, pois depende apenas de decisão política. Se o governo quiser, pode substituir óleos combustivéis diretamente. Um produtor rural pode muito bem, na sua própria fazenda, usando rodão, extrair o óleo e usá-lo como combustível em caldeiras e motores estacionários. Para isso, bastam apenas algumas modificações, como, por exemplo, a alteração na bomba injetora, que é uma coisa simples. Mas se a decisão for usar a transesterificação, nós temos condições de fazer, dominamos a tecnologia e a Ceplac com menos de um mês estará capacitada para produzir. E ela tem, inclusive, uma unidade de transesterificação. A reação se processa em quatro minutos e você obtém glicerina, um dos subprodutos que o Brasil importa. Através dessa glicerina, a Ceplac poderia se capacitar e as universidades desenvolver uma pseuroquímica para obter derivados semelhantes ao petróleo. Está tudo aí para a Ceplac levar adiante.
JA – Por que, então, a Ceplac não levou adiante? O que os dirigentes diziam ou não diziam?
H.S. – Não diziam nada. Simplesmente me tiraram as condições de trabalho. Muita coisa eu tenho na minha casa, porque não tinha condições de realizar na CEPLAC.
JA – O senhor está falando dos dirigentes locais?
H.S. – São mistérios. Eu sei que a Ceplac tinha tudo para levar adiante um projeto de diversificação da economia da região cacaueira. Talvez pressão de agricultores, que alegavam que a Ceplac não deveria se meter nesse tipo de coisa. Foi uma coisa de bastidores que eu não sei. Fiquei surpreso e decepcionado, porque tinha muito para alavancar essa região. Compare: podemos ter uma guerra, e o que acontece com o cacau? O preço do combustível vai para a estratosfera e o cacau vai diminuir. Mas sem energia nada se move, nada sobrevive. Então, você poderia ter como aliado do cacau o dendê, ou uma outra planta oleaginosa que a Ceplac deveria identificar. Eu sou engenheiro químico, mas a Ceplac está cheia de engenheiros agrônomos, que poderiam identificar muitas oleaginosas compatíveis com a cultura do cacau.
JA – O programa do dendiesel da Ceplac acabou, mas a Uesc está com um programa de biodiesel. Funciona? E o senhor participa ou foi convidado?
H.S. – Pelo contrário, eu convidei a Uesc. Acontece que eu fui demitido da Ceplac, porque eu não me conformei com isso. Eu denunciei a direção várias vezes e o jornalista Antonio Lopes colocou uma denúncia minha na imprensa e os diretores me chamaram para dizer que eu ia ser demitido. Eu falei para eles: “Posso ser demitido, mas vocês são uns covardes” e me preparei para enfrentar os três.
JA – Quem eram os diretores na época?
H.S. – Quase todos estão no poder até hoje. Eles pediram, O diretor sentenciou e o superintendente local encaminhou o processo de demissão. Me demitiram mesmo eu tendo estabilidade. Entrei com ação na Justiça, mas como ela é tão morosa, acho que meus bisnetos é que vão receber o que tenho direito.
JA – Os diretores não seriam só instrumentos?
H.S. – É bem possível, porque o meu projeto contraria grandes interesses internacionais. Hoje, a coisa mudou. Eu não vou falar mal de ex-diretores da Ceplac porque alguns são até meus amigos. Mas há fatos curiosos, estranhos...Um diretor saiu da Ceplac para ser diretor de uma companhia de petróleo, isso é muita coincidência. Em 84, quando lançamos o projeto Dendiesel, a Ceplac se comprometeu a dar o recurso e no ano seguinte, o diretor da Ceplac sai para ser diretor de uma companhia de petróleo. Evidentemente que ele foi inocente. O cara chega e vê que ele ganha 20 mil reais. Aí, diz: “eu te dou 60, venha ser diretor, porque você é muito eficiente”. É isso o que fazem, elogiam o cara. Tentaram fazer isso comigo, só que eu percebi...
JA – E após a demissão, o que o senhor foi fazer?
H.S. – Eu fui demitido e Agenor Gasparetto me convidou para dar aula de matemática, mas no fundo ele sabia que eu ia mexer com energia. Eu vi outra possibilidade. Dei alguns cursos sobre energias renováveis, trouxe o motor Elsbett, modelo alemão, que funciona com óleo in natura e óleo diesel também. Participei de alguns seminários internacionais. Nos primeiros, a Uesc me deu a passagem. Fui. Defendi a região, a Uesc, a Ceplac, e depois eu comecei a ter muitas dificuldades. Não tinha uma sala, não ganhava nada e estava dando a minha contribuição de graça. Criei um núcleo de energias renováveis de oléo-química que está na internet até hoje. E aconteceu um congresso internacional em São Paulo sobre energias renováveis e eu fui convidado e pedi para ir pela Uesc que pagou a minha ida até o Rio de Janeiro para uma reunião sobre o sistema nacional de tecnologia, que seria envolvido nesse projeto que hoje está na Uesc. E, nessa ocasião as pessoas se apresentavam, fulano de tal do Japão, Estados Unidos e eu falei Hernani Sá, de Ilhéus. E todos pararam para perguntar que país era esse Ilhéus. E eu falei do potencial do dendê, e depois disso o pessoal da USP me procurou, e começamos a estudar a possibilidade de um centro de referência em biomassa e eu queria envolver a Uesc em parceria com a USP. Só que a Uesc não deu a mínima e a USP já ganhou diversos prêmios internacionais, pois criaram o Centro Nacional de Referência em Biocombustíveis e lá eles cadastraram o nosso Núcleo de Energias Renováveis de Óleo da Uesc e da Ceplac.
JA - E o projeto de biocombustíveis continuou com o uso do dendê?
H.S. – Eu fiz um projeto a pedido do Ministério das Minas e Energia para geração de termoelétrica com dendê, em comunidades assistidas. Por escolha do Instituto Nacional de Tecnologia, seria uma comunidade chamada Tibina, em Ilhéus. Ali nós íriamos gerar energia elétrica para a comunidade, aproveitando resíduos e tudo mais. Aí, chegou um cara da Alemanha enviado por universidades alemãs que iriam fazer parte desse núcleo como colaboradoras. E aí disseram que não dava, que não tinha dendê e me tomaram o projeto. Então, organizei um workshop para o dia 23 de março de 1998 em que as instituições e os técnicos iriam debater e definir a participação de cada um deles. E acabou que o cara que veio da Alemanha ficou à frente de tudo, e eu fui alijado do meu projeto. Eles foram muito cobrados porque estavam fazendo dendê para gerar energia elétrica e aí resolveram mudar de estratégia e usar óleo residuais, alegando que o óleo polui o meioambietne, o que é mentira, porque ele é biodegradável. Eles não têm a mínima noção de química, porque dizem que o óleo de dendê gera metano. Metano é produzido por uma reação anaeróbica, é preciso enterrar para poder formar o metano. Nem conhecimento de química eles têm, e se fosse possível formar o metano, ao invés de mandar para a Uesc, iria enterrar e formar gás para uso na cozinha, ou então produzir sabão que é muito mais viável economicamente para eles do que mandar aqui para Uesc para ser processado. Me pediram um parecer e eu falei exatamente isso, que a Uesc deveria pesquisar outras coisas. Sugeri um elenco de projetos para fazer.
JA – Que quantidade de área plantada é necessária para atender às demandas?
H.S. – Para substituir todo o óleo diesel, precisaríamos de uma área de 5 millhões hectares com dendê e outras plantas oleaginosas, a não ser que exista alguma oleaginosa com poder superior ao do dendê.
JA – Qual a área de dendê existente hoje na Bahia?
H.S. – 30 mil hectares.
JA – Mas um levantamento da Ceplac diz que tem 700 mil disponíveis.
H.S. – São 2 milhões de hectares, mas livres são 700 mil hectares. Isso seria um grande negócio, sem considerar o combustível, porque o Brasil tem uma demanda a ser satisfeita de 650 mil hectares para dendê. Então, se você plantar, na pior das hipóteses você tem um mercado para os outros fins, ou seja, produção de margarina, óleo lubrificante, cosméticos, enfim, uma série de artigos. Não se está perdendo nada, inclusive é possível fazer chocolate com dendê, que eu vejo não como um concorrente, mas como um aliado do cacau. Porque fazendo um chocolate com dendê, com coco, se ampliaria o universo dos consumidores. O cacau entraria como aditivo, pois tem preço muito mais alto. É uma idéia para ser estudada e que eu acho viável.
JA – Países do Oriente são grandes produtores de dendê e dominam o mercado mundial. Por que esses países não desenvolvem pesquisa para o uso do dendê como combustível?
H.S. – No ano passado, um cidadão veio conversar com o governador, e me convidou para conversar com ele. Eu levei um intérprete amigo meu, mas por minha conta, porque tudo o que eu peço à Ceplac é negado. Ele disse: “A nossa arma secreta é o dendiesel, porque a tendência de preço é aumentar conforme as dificuldades que o mundo vai atravessar. É uma pena não termos mais áreas para expandir”. E eles cobram uma parceria com o Brasil. Então são coisas para serem estudadas pelo governo. Na verdade, os órgãos de pesquisa brasileiros não estão capacitados para uma demanda que pode surgir agora, com Lula. Se ele quer gerar emprego, 5 milhões de hectares vão propiciar 5 milhões de empregos diretos, fora os indiretos. Fazendo a substituição do óleo diesel, ele pode chegar a até 15 milhões de oportunidades de trabalho. Outro dado preocupante da Agência Nacional de Petróleo é quanto a duração das reservas conhecidas. Aliás, se dividir pelo consumo, isso dá entre 14 e18 anos, o que é muito grave.
JA – A saída pelo álcool não seria viável?
H.S. – O álcool é uma parte. É como eu disse, substituir a gasolina apenas não resolve. Tem que se pensar no óleo diesel. Se você continua importando a mesma quantidade de petróleo haverá gasolina excedente. Então, não resolve. Ou você substitui todos os derivados ou vai importar derivados. A saída é substituir totalmente o petróleo, através da biomassa. Os óleos vegetais podem substituir todos os derivados, com um processo chamado craqueamento termocatalítico, no qual se fraciona a molécula do óleo e, em seguida, destila. A partir daí, se obtém a gasolina e o querosene. Eu não fiz isso, mas um levantamento que fizemos indicava essa possibilidade.
JA – O custo de adaptação do motor dos carros para o dendiesel é alto?
H.S. – Nos carros a diesel se pode usar óleo vegetal sem maiores complicações. Diferente da gasolina e do álcool, que precisam de um motor especial. Aí, é que entram a Ceplac, o Instituto Nacional de Tecnologia e a universidade para otimizarem o processo termocatalítico.





